Novo edital da Secult quer combater ´carnavalização´ das Quadrilhas


Brincantes, pesquisadores e gestores públicos discutem os limites das mutações culturais

Quadrilha Zé Testinha uma das mais tradicionais de Fortaleza
Um humilde tecido de algodão e tramas simples está no centro das discussões sobre os milionários festejos do São João cearense este ano. A chita foi colocada nesse lugar após a divulgação do edital Ceará Junino 2012, da Secretaria da Cultura do Estado (Secult). Durante a solenidade pública de lançamento, o secretário Francisco Pinheiro ressaltou que as festas deverão valorizar mais as tradições juninas e deixou clara sua preocupação com o que ele chama de "carnavalização" das quadrilhas do Ceará.
"Conheço vários grupos juninos que desapareceram por não terem condições de custear essa ´carnavalização´. Nossa intenção será resgatar esses valores e apoiar esses grupos", afirmou Pinheiro. O principal aspecto apontado por ele é o figurino, hoje tomado por enchimentos, brilhos, pedrarias e tecidos caros. "Por que não usar chita? A chita é um tecido que vem de longa tradição no interior do Ceará. É um pano mais barato, um pano que a população rural usava. Isso praticamente desapareceu do Ceará Junino".

Kiko Sampaio, presidente da Fequajuce (Federação das Quadrilhas Juninas do Ceará), que reúne 400 dos 700 grupos estimados no Estado, reconhece que a chita quase não é mais usada nos festejos, não apenas no Ceará, mas de todo o Nordeste. "De 100 quadrilhas, talvez uma use, porque a chita é um tecido ralo, frágil, de pouca qualidade", justifica. Ele pede que o secretário pondere sobre o assunto para não prejudicar os grupos cearenses.

De acordo com Pinheiro, não há proibições e cada grupo é livre para se apresentar com a indumentária que achar melhor: "Claro que secretaria não tem poder de definir a estética do Ceará Junino, mas vamos orientar nossos julgadores a levarem isso em conta e valorizarem quem seguir nossas orientações". As orientações que levaram a esses critérios, acrescenta, foram fundamentadas pelas discussões de um seminário realizado no ano passado, envolvendo a Fequajuce e grupos cearenses de São João.

"São João é o colorido, não a chita em si, que era usada antigamente para uma festa, não para um mês ou dois de competição", diz Reginaldo Rogério, coordenador geral do Arraiá do Zé Testinha, grupo formado em 1976, na Vila União. A quadrilha obteve o terceiro lugar no Ceará Junino 2011. "Quadrilha não é feita só de indumentária", diz Kiko Sampaio, para quem a coreografia, a música e os temas que fazem parte da festa mantêm os valores juninos.

"Os grupos estão, cada vez mais, aprimorando seus trabalhos de pesquisa, trazendo para os festejos temas e personagens tipicamente cearenses", comenta Tácio Monteiro, presidente da Junina Babaçu. O grupo, criado em 1989, agregando 140 pessoas, foi ao vencedor do Festival Cearense de Quadrilhas do ano passado, com uma homenagem ao centenário do município de Juazeiro do Norte, no interior do Ceará. "Mostramos as personalidades, as manifestações, os reisados...", exemplifica.

Preservação

A visão do secretário sobre outros elementos da quadrilha parece ser mais complacente. Embora a presença de um conjunto pé-de-serra continue sendo uma exigência, não há determinações, por exemplo, sobre o uso de guitarras ou não. Ou seja, no Ceará junino serão encontradas tanto formações tradicionais de zabumba, triângulo e sanfona quanto guitarras elétricas. Para ele, "faz parte das transformações que ocorrem na música".

Pinheiro diz que não há a intenção de fazer do Ceará Junino um "museu", mas que não se pode deixar que o evento se transforme em um "desfile de carnaval, sem qualquer referência com a festa de São João, uma festa que tem relação com o rural". A ideia não seria impedir que novos elementos fossem agregados, mas preservar certos referenciais. A música, por exemplo, pode ser executada em CD ou DVD.

Reginaldo, da Zé Testinha, concorda que, como órgão público, a Secult precisa "resgatar alguns costumes perdidos e incentivar o respeito pelo matuto", inclusive na indumentária. Em sua opinião, o excesso de pedras e brilhos descaracteriza o figurino típico das quadrilhas, independente do tecido utilizado. Já para Tácio, da Junina Babaçu, se trata de uma transformação natural dos festejos, em que esses elementos dão mais vida e destacam o movimento das coreografias.

Diante de opiniões distintas sobre os limites do luxo e das transformações por que passam as quadrilhas, Kiko Sampaio defende que a Secult volte a ouvir os grupos e analise um pouco mais os critérios de julgamento do Ceará Junino. "A cultura é pulsante, viva, se transforma o tempo todo. Todas as festas mudam. O carnaval de 30 anos atrás também era totalmente diferente do de hoje", expõe.

O teatrólogo e antropólogo Oswald Barroso vê com bons olhos todas essas mudanças, que, segundo ele, abrasileiraram as quadrilhas e puseram fim a estigmas sobre o matuto. "Hoje, não há mais traje com chapéu de palha, roupas furadas, remendadas, isso era uma gozação com o matuto. Isso é coisa da belle époque. Nunca houve sentido nisso. Os matutos não eram aquilo que mostravam as quadrilhas, um bando de abestado".

Demandas

Segundo o secretário Francisco Pinheiro, o edital foi elaborado em cima de demandas dos próprios organizados de festivais e quadrilhas, reunidos no Seminário de Avaliação e Planejamento de Festejo Ceará Junino, em outubro de 2011. "Esta foi uma das formas que encontramos de discutir de forma democrática a aplicação dos recursos do Edital, ouvindo as pessoas que estão envolvidas diretamente com o processo". Os altos custos da "carnavalização" estariam contribuindo para o desaparecimento de alguns grupos.

Nos últimos anos, os festejos juninos se converteram em um negócio milionário, que movimenta cerca de R$ 45 milhões em um ano, conforme estimativas da Fequajuce. "Campina Grande (PB) e Caruaru (PE) podem ter festas maiores, mas o maior número de quadrilhas está no Ceará", assegura Kiko Sampaio. São mais de 35 mil brincantes em todo o estado e pelo menos 8 mil profissionais envolvidos, entre músicos, costureiros e outras pessoas dedicadas à realização da festa.

O Ceará Junino chega ao 14º ano como a única iniciativa de apoio com edital específico para as quadrilhas juninas. "Foram muitos anos batalhando pelo reconhecimento como movimento cultural", frisa Kiko. Serão investidos R$ 958 mil oriundos do Fundo Estadual de Cultura, sendo obrigatória a destinação de, no mínimo, 50% para o interior do estado. Desse valor total, R$ 320 mil são para 20 projetos de festivais de quadrilhas. A maior parcela, R$ 638 mil, são voltados para o apoio de 58 projetos de grupos.

Segundo cálculos da Fequajuce, as verbas do edital cobrem de 20% a 30% dos gastos com os festejos. O restante do dinheiro necessário vem parcerias, patrocínios e eventos promovidos pelos próprios grupos. A comunidade também se mobiliza e, muitas vezes, cada brincante paga sua própria roupa - como acontece na Junina Babaçu.

O edital de 2012 recebeu um acréscimo de 7% no valor da premiação do festival de quadrilhas do Ceará Junino, que somará o valor de R$ 8 mil, divididos em primeiro, segundo e terceiro lugar, além de troféus. São R$ 4 mil para o grande vencedor. Os quesitos individuais serão premiados com medalhas.

FIQUE POR DENTRO

Chita: da origem indiana ao colorido tropical

A chita é um tecido de algodão com tramas simples e estampas de cores fortes em padrões grandes, geralmente florais. As cores intensas servem para embelezar o tecido, mas também para disfarçar suas irregularidades, como eventuais aberturas e imperfeições. O metro do tecido custa entre R$ 5 e R$ 8. Considerada matuta ou caipira, a chita veio de longe. Produzida desde o século XI na Índia, com o nome de chintz, se expandiu pela Europa nos séculos XV e XVI, chegando ao Brasil no começo do século XIX. Aqui, nossas flores, folhas e frutos tropicais foram incorporados aos padrões de estamparia.

MÔNICA LUCAS
ESPECIAL PARA O CADERNO 3

OPINIÃO DO ESPECIALISTA

A quadrilha em sintonia com a comunidade

As quadrilhas juninas são uma das mais importantes manifestações culturais do Estado. Deixaram de ser "quadrilhas de matuto" para ser "quadrilhas brasileiras". Originalmente, no São João não havia esses. Eles surgem no século XIX. Chegam no Brasil com Dom João VI, primeiro ocupando os grandes salões da nobreza, para, depois, se popularizarem. Nessa época, se vivia um período que tentava mudar os hábitos da população, de rurais para urbanos. A quadrilha francesa e com crítica aos costumes do campo, "anavantu", "anarriê", são quadrilhas de uma época que teve sua mentalidade superada. Esse novo tipo de quadrilha junina, que surgiu há cerca de 20 anos, é uma evolução muito positiva da tradição. Primeiro, porque não tem mais por base a gozação com o matuto. Ela tem mais respeito com o homem do campo. Segundo, porque tem uma linguagem brasileira, não mais francesa, nem portuguesa. As quadrilhas têm temas e agregam outras manifestações, como o reisado. O importante é que a comunidade participe - e vejo que ela participa e não espera pelo Estado. Talvez haja alguns exageros, como ritmo, que me parece rápido demais. Mas em tudo existe algum exagero. Não se pode querer controlar as quadrilhas. Ao contrário, o que se pode ser feito é orientá-las, para que nunca deixem de ser comunitárias. Em todos os bairros da Capital, há quadrilha e festivais de quadrilhas. A quadrilha está crescendo e ficando mais bonita.

OSWALD BARROSO
ANTROPÓLOGO

Comentários

  1. No Ceará é assim... Terrinha abençoada, depois tem gente que questiona os resultados achando que teve roubo em outro estado, não existe como ter, em um local que a cultura é manipulada e não pode ser vivenciada é assim mesmo.

    E pra piorar colocam um secretário que de cultura o que ele sabe é o que ele lembra, o que será do Ceará com um secretário mal assessorado desse, e o movimento junino que não se junta pra provar por A + B que quem faz o São João que decide como ele tem que andar.

    Senhor Kiko, façamos que suas palavras saiam do jornal e cheguem no local certo, reúna suas quadrilhas e mostre a força do movimento junino cearense.

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